Conheça a história dos filmes coreanos
Romance atravessado por décadas, thriller político, terror, melodrama, comédia, investigação policial. Uma das características mais interessantes dos filmes coreanos está justamente na dificuldade de encaixá-los em uma única fórmula.
Nas últimas décadas, o cinema produzido na Coreia do Sul conquistou uma circulação internacional impressionante, mas essa projeção não surgiu de repente. Por trás dos títulos que hoje atravessam festivais, salas comerciais e plataformas de streaming existe uma história centenária, marcada por ocupação colonial, guerra, censura, transformações políticas e sucessivas reinvenções da própria indústria.
Essa trajetória ajuda a entender por que o cinema coreano contemporâneo transita com tanta naturalidade entre gêneros e pode transformar tanto uma história de amor quanto um episódio decisivo da política do país em experiências cinematográficas muito particulares.
Na Reserva Imovision, dois filmes oferecem caminhos bastante diferentes para começar essa descoberta. 12.12: O Dia transforma acontecimentos de 1979 em um thriller de tensão crescente, enquanto Ditto: Conexões do Amor, que chega à plataforma em 30 de outubro, encontra na fantasia uma maneira de aproximar duas pessoas separadas pelo tempo.
A história do cinema coreano atravessa mais de um século e acompanha algumas das mudanças mais profundas vividas pela península.
Um dos marcos utilizados para celebrar o nascimento dessa cinematografia é 1919, ano da exibição de The Righteous Revenge, uma espécie de drama teatral combinado a imagens filmadas. A data foi utilizada pelo próprio setor cinematográfico sul-coreano para celebrar, em 2019, os cem anos do cinema do país.
Nas décadas seguintes, a produção se desenvolveu em meio à ocupação japonesa da Coreia. Filmes silenciosos, adaptações literárias e posteriormente produções sonoras fizeram parte desse período, embora uma parcela significativa das obras mais antigas tenha sido perdida. O Korean Film Archive observa que nenhum longa produzido antes de 1934 sobrevive integralmente hoje.
A libertação do domínio japonês em 1945 foi seguida por outra ruptura histórica. A divisão da península e a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, afetaram profundamente a infraestrutura cinematográfica e a preservação dos filmes. Ainda assim, a produção voltou a crescer nos anos seguintes.
As décadas de 1950 e 1960 são lembradas como um importante período de retomada e expansão. Melodramas, dramas familiares, filmes históricos e produções de gênero conquistaram o público enquanto cineastas encontravam maneiras de observar uma sociedade que mudava rapidamente.
O percurso posterior seria menos linear.
Durante os governos autoritários das décadas de 1970 e 1980, a produção cinematográfica esteve submetida a forte regulação e censura. As transformações democráticas do fim dos anos 1980 ajudaram a abrir outro momento para o setor, acompanhado pelo surgimento de novos realizadores e por mudanças nas políticas cinematográficas.
A partir dos anos 1990, os filmes sul-coreanos começaram a ganhar uma presença cada vez maior dentro e fora do país. Novos modelos de investimento, fortalecimento da indústria e uma geração interessada em combinar cinema popular e ambição autoral ajudaram a transformar o cenário.
Em 1999, Shiri tornou-se um marco do blockbuster local. No ano seguinte, Chunhyang, de Im Kwon-taek, foi o primeiro filme sul-coreano selecionado para a competição do Festival de Cannes. Em 2002, Im recebeu em Cannes o prêmio de direção por Chihwaseon.
Nas décadas seguintes, diretores como Park Chan-wook, Bong Joon-ho, Lee Chang-dong, Hong Sang-soo e Kim Ki-duk ajudaram a ampliar ainda mais a projeção internacional dessa cinematografia.
Em 2019, Parasita, de Bong Joon-ho, tornou-se o primeiro filme sul-coreano a receber a Palma de Ouro de Cannes e, posteriormente, conquistou quatro Oscars, incluindo Melhor Filme. O reconhecimento foi histórico, mas chegou depois de décadas de desenvolvimento artístico e industrial.
Não existe uma resposta única, assim como não existe um único tipo de cinema coreano.
Uma característica recorrente, porém, é a liberdade com que muitos cineastas atravessam gêneros. Um drama familiar pode adquirir elementos de suspense. Uma comédia pode esconder uma observação bastante dura sobre desigualdade. Um romance pode incorporar ficção científica. Um filme histórico pode ser conduzido com o ritmo de um thriller.
Também há um interesse frequente pelas transformações sociais do país. Família, trabalho, hierarquia, desigualdade, juventude, memória política e mudanças urbanas aparecem em filmes muito diferentes entre si.
Essa combinação entre histórias profundamente ligadas à experiência sul-coreana e linguagens capazes de conversar com públicos de outros lugares ajudou a ampliar a circulação internacional dessas produções.
Mas procurar os melhores filmes coreanos apenas entre os grandes vencedores de prêmios significa conhecer somente uma parte dessa cinematografia. O repertório inclui desde superproduções comerciais até filmes independentes, romances, animações, dramas históricos e experiências autorais difíceis de classificar.
É justamente essa variedade que aparece nos dois títulos a seguir.
Dois momentos, dois gêneros e duas maneiras completamente diferentes de olhar para o tempo.
Enquanto Ditto: Conexões do Amor coloca duas épocas em contato por meio de um rádio, 12.12: O Dia retorna a algumas horas decisivas da história contemporânea sul-coreana.

Em Ditto: Conexões do Amor, dirigido por Seo Eun-young, Kim Yong é um estudante de engenharia que vive em 1999. Kim Mu-nee é universitária em 2022.
Os dois estudam na mesma instituição, mas estão separados por mais de duas décadas. Ainda assim, um antigo rádio permite que suas vozes se encontrem.
A princípio, existe a surpresa de descobrir quem está do outro lado daquela frequência. Aos poucos, porém, o impossível deixa de ser a parte mais importante da história. Yong e Mu-nee começam a dividir dúvidas, expectativas e experiências amorosas, construindo uma intimidade que nenhum dos dois poderia encontrar de maneira convencional.
O filme usa a fantasia menos como espetáculo do que como espaço para falar sobre escolhas e memória. O que você diria a alguém que vive no mesmo lugar que você, mas em outro tempo? E até que ponto conhecer o futuro poderia realmente ajudar a lidar com o presente?
Com Yeo Jin-goo, Cho Yi-hyun e Kim Hye-yoon no elenco, o longa sul-coreano de 2022 combina romance, fantasia e uma atmosfera nostálgica. Ele também é uma nova versão de Ditto, filme lançado originalmente em 2000.
Ditto: Conexões do Amor chega à Reserva Imovision em 30 de outubro de 2026.

Se Ditto atravessa o tempo por uma frequência de rádio, 12.12: O Dia concentra sua tensão em algumas horas.
Dirigido por Kim Sung-soo, o filme se passa em dezembro de 1979, depois do assassinato do presidente Park Chung-hee. Em meio à lei marcial e à instabilidade política, o comandante de segurança Chun Doo-gwang, interpretado por Hwang Jung-min, mobiliza um grupo de oficiais para assumir o controle militar.
Do outro lado está Lee Tae-shin, vivido por Jung Woo-sung, comandante da Defesa da Capital que defende a neutralidade política das Forças Armadas e tenta impedir o avanço do golpe.
O resultado é menos uma aula de história do que um thriller sobre disputa de poder. Ordens atravessam corredores, alianças mudam e decisões tomadas em poucos minutos começam a definir o destino de uma cidade inteira.
O filme é inspirado no golpe militar de 12 de dezembro de 1979, episódio determinante da história política sul-coreana. Kim Sung-soo tinha 19 anos na época e recorda ter visto movimentações militares e ouvido disparos naquela noite em Seul, uma memória que permaneceu com ele décadas antes de dirigir o longa.
Essa proximidade não transforma a obra em reconstituição documental. Os nomes de alguns personagens foram alterados, e a narrativa organiza acontecimentos históricos de maneira dramática para acompanhar o confronto central.
Lançado na Coreia do Sul em 2023, 12.12: O Dia ultrapassou 13 milhões de espectadores no país e tornou-se um grande fenômeno de público. Também foi escolhido para representar a Coreia do Sul na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional.
Na Reserva Imovision, o filme oferece também outra porta de entrada para compreender como o cinema sul-coreano transforma a própria história recente em narrativa de gênero.
À primeira vista, Ditto: Conexões do Amor e 12.12: O Dia parecem pertencer a universos que dificilmente dividiriam a mesma sessão.
Um é construído em torno de sentimentos, juventude e uma comunicação impossível entre 1999 e 2022. O outro revisita um episódio político de 1979 e acompanha uma noite em que decisões militares alteraram o rumo do país.
Mas existe algo que aproxima os dois.
Ambos olham para o passado a partir do presente. Em Ditto, essa relação é íntima. O passado aparece nas paixões, expectativas e escolhas de dois jovens. Em 12.12: O Dia, a memória é coletiva e política.
É também um bom retrato da variedade dos filmes coreanos. A mesma cinematografia que encontra espaço para um romance fantástico pode transformar acontecimentos históricos em um thriller de grande escala.
Na Reserva Imovision, essas duas obras permitem começar por lugares diferentes e seguir descobrindo um cinema cuja história é muito maior do que qualquer gênero isolado.
A projeção internacional das produções sul-coreanas trouxe novos espectadores, mas também algumas dúvidas sobre termos, festivais e características dessa cinematografia. As respostas abaixo ampliam o percurso sem repetir os temas abordados anteriormente.
Não. K-drama é o termo internacionalmente utilizado sobretudo para séries televisivas produzidas na Coreia do Sul.
Os filmes fazem parte de uma indústria cinematográfica própria, com circuitos de salas, festivais, produtoras e formas específicas de distribuição. Há atores, diretores e roteiristas que transitam entre os dois universos, mas cinema e televisão não são sinônimos.
O Festival Internacional de Cinema de Busan, criado em 1996, tornou-se um dos eventos cinematográficos mais importantes da Ásia.
Sua programação tem papel relevante na apresentação de novos cineastas asiáticos, além de reunir produções coreanas e internacionais e atividades voltadas à indústria audiovisual. A criação do festival aparece entre os marcos da trajetória recente do cinema sul-coreano.
Sim. A associação internacional entre cinema sul-coreano, suspense e terror representa apenas uma pequena parte de sua produção.
Romances, melodramas, comédias, filmes históricos, animações, dramas familiares, ação e cinema independente também possuem presença expressiva. Ditto: Conexões do Amor, por exemplo, combina romance e fantasia, enquanto 12.12: O Dia trabalha com drama histórico e suspense político.
Sim. O Korean Film Archive, criado em 1974, reúne, preserva, restaura e disponibiliza materiais relacionados à história cinematográfica do país.
A instituição também mantém bases de dados, espaços de exibição e iniciativas de acesso ao patrimônio audiovisual, algo especialmente importante porque grande parte dos filmes produzidos nas primeiras décadas do cinema coreano não chegou intacta ao presente.
A oferta varia conforme os direitos de distribuição e o período de disponibilidade de cada título. Na Reserva Imovision, é possível assistir a 12.12: O Dia, enquanto Ditto: Conexões do Amor entra no catálogo em 30 de outubro de 2026.
Esses dois filmes já mostram como os filmes sul-coreanos podem seguir caminhos bastante diferentes sem perder a capacidade de transformar história, memória e relações humanas em experiências marcantes de cinema.
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