Festival do Rio: filmes premiados para assistir
Durante alguns dias de outubro, o Rio de Janeiro muda um pouco de ritmo. As salas recebem estreias, cineastas atravessam a cidade para conversar com o público e filmes que acabaram de passar por Cannes, Berlim e Veneza encontram seus primeiros espectadores brasileiros. Ao mesmo tempo, novas produções nacionais chegam à tela carregando aquela mistura de ansiedade e expectativa que acompanha toda première.
Esse movimento ajuda a explicar o lugar ocupado pelo Festival do Rio. Criado em 1999, o evento construiu uma trajetória ligada tanto à descoberta do cinema brasileiro quanto à aproximação do público com produções internacionais que, muitas vezes, chegam ao país depois de estrearem nos grandes festivais do mundo. Desde sua criação, mais de 7 mil longas nacionais e estrangeiros já passaram por sua programação.
Em 2026, o encontro chega à 28ª edição, entre 1º e 11 de outubro. É também uma boa oportunidade para voltar a filmes que já fizeram parte dessa história. Na Reserva Imovision, títulos como Boi Neon, As Boas Maneiras, Assunto de Família, Eu, Daniel Blake, Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas e A Fita Branca permitem continuar essa viagem muito depois que as sessões do festival terminam.
A História do Festival do Rio começa em 1999, quando dois eventos que já faziam parte da cena cinematográfica carioca, o Rio Cine Festival e a Mostra Banco Nacional de Cinema, deram origem a um novo festival. A união dessas experiências criou um evento maior, capaz de reunir em uma mesma programação produções brasileiras e filmes internacionais que circulavam pelos principais festivais do mundo.
Desde a primeira edição, o objetivo foi fazer do Rio de Janeiro um grande ponto de encontro para o cinema. As sessões ocuparam salas tradicionais da cidade e também chegaram a espaços abertos. O Cine Odeon, na Cinelândia, tornou-se um dos lugares mais associados ao festival e, ao longo dos anos, recebeu estreias, cerimônias e encontros entre realizadores e público.
Com o crescimento do evento, duas frentes passaram a se destacar. De um lado, a programação internacional aproximou os espectadores brasileiros de filmes recém-apresentados em festivais como Cannes, Berlim e Veneza. De outro, a Première Brasil ganhou força como vitrine para novos longas e curtas nacionais, criando espaço para estreias, debates e para a premiação com o Troféu Redentor.
Essa combinação ajudou a construir a identidade do Festival do Rio. Em uma mesma edição, o público pode descobrir novos nomes do cinema brasileiro e assistir a produções internacionais que estão começando sua trajetória pelo circuito mundial.
Ao longo de mais de duas décadas, o festival ampliou suas mostras, atividades profissionais e espaços de exibição, acompanhando mudanças no próprio audiovisual. O que permanece é a ideia que estava presente desde 1999: transformar a cidade em um lugar de encontro entre filmes, profissionais e espectadores e manter o cinema em circulação muito além de uma única sessão.
A importância do evento passa, antes de tudo, pela circulação. Um filme precisa encontrar espectadores para continuar vivendo, e festivais ajudam a construir justamente esse encontro.
Para o cinema brasileiro, a Première Brasil funciona como espaço de estreia, reconhecimento e diálogo. Filmes e profissionais concorrem ao Troféu Redentor, enquanto sessões, debates e encontros aproximam realizadores, imprensa, profissionais do setor e público.
No campo internacional, o Festival do Rio também funciona como uma espécie de janela para aquilo que está acontecendo no cinema mundial. Sua história inclui obras que passaram por Cannes, Veneza, Berlim e Toronto antes de chegar às telas cariocas. A Fita Branca, Tio Boonmee, Eu, Daniel Blake e Assunto de Família, por exemplo, chegaram ao evento depois de conquistar a Palma de Ouro em diferentes edições de Cannes.
Talvez seja esse encontro entre descoberta e reencontro que explique parte de sua permanência. O festival não serve apenas para antecipar aquilo que chegará aos cinemas nos meses seguintes. Ele também constrói memória.
Uma das curiosidades do Festival do Rio está justamente em sua origem. Em vez de começar do zero, o evento nasceu da fusão de dois projetos que já tinham relação importante com o audiovisual brasileiro, o Rio Cine Festival e a Mostra Banco Nacional.
Outra particularidade está na convivência entre a competição nacional e uma programação internacional extensa. A Première Brasil ocupa o coração do evento, mas divide espaço com mostras como Panorama Mundial, Expectativa, Première Latina, Midnight Movies, Itinerários Únicos e Clássicos & Cults. Em 2026, essas seções voltam a reunir desde novos realizadores até clássicos restaurados e produções de cineastas já consagrados.
O próprio Troféu Redentor se tornou uma imagem reconhecível dessa história. Filmes como Boi Neon e As Boas Maneiras saíram do festival com a principal premiação de longa de ficção e hoje podem ser revisitados na Reserva Imovision.
Há ainda uma relação especialmente forte com o Cine Odeon. Muito além do tapete vermelho, a sala guarda parte da memória afetiva do festival e continua sendo um dos espaços associados às grandes estreias, debates e cerimônias do evento.
A 28ª edição do Festival do Rio de Cinema acontece entre 1º e 11 de outubro de 2026, com sessões e atividades distribuídas por diferentes espaços do Rio de Janeiro e da Região Metropolitana.
A edição reúne filmes brasileiros e internacionais, galas, debates, encontros e masterclasses. A Première Brasil volta com competições de longas e curtas e a seção Novos Rumos, enquanto a programação estrangeira se distribui por diferentes mostras.
A seleção completa da edição de 2026 está prevista para ser apresentada em 21 de setembro, enquanto a grade detalhada, com datas, horários e locais das sessões, será divulgada em 24 de setembro. A abertura acontece com A Bola Preta, de Javier Calvo e Javier Ambrossi. Já o encerramento terá duas galas, com Club Kid, de Jordan Firstman, na internacional, e 100 Dias, de Carlos Saldanha, na brasileira.
O mais interessante, porém, talvez seja permitir que a programação faça o que todo bom festival sabe fazer. Colocar filmes inesperados lado a lado e deixar que o espectador construa seu próprio percurso.
O catálogo da Reserva Imovision guarda vários títulos que já atravessaram as telas do evento. Alguns foram premiados no próprio festival. Outros chegaram ao Rio carregando o reconhecimento de Cannes. Juntos, eles ajudam a percorrer diferentes anos, cinematografias e maneiras de contar histórias.

Boi Neon, de Gabriel Mascaro, acompanha Iremar, um vaqueiro que trabalha nos bastidores das vaquejadas. Ao lado de seus companheiros, ele viaja pelo Nordeste cuidando dos animais e preparando tudo para os eventos, mas sua imaginação está voltada para outro universo.
Iremar sonha com tecidos, desenhos e a indústria de confecção que começa a crescer na região. Quer trabalhar com moda.
O filme encontra sua força justamente em não transformar esse desejo em contradição fácil. O vaqueiro e o estilista podem existir dentro do mesmo homem. O sertão e a indústria também convivem. Masculinidade, trabalho, corpo e desejo vão ganhando contornos mais fluidos enquanto o longa observa um Nordeste em movimento.
No Festival do Rio de 2015, Boi Neon venceu o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção, além dos prêmios de roteiro, fotografia e atriz coadjuvante para Alyne Santana.

Em As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Clara é uma enfermeira que vive na periferia de São Paulo e aceita trabalhar como babá para Ana, uma mulher rica e misteriosa que está grávida.
A princípio, o filme parece interessado na distância entre essas duas mulheres, nos espaços da cidade que ocupam e na relação profissional que começa a aproximá-las. Mas uma noite de lua cheia altera o caminho da narrativa.
Daí em diante, melodrama, romance, fantasia e terror começam a conviver como se sempre tivessem pertencido à mesma história. As Boas Maneiras encontra justamente nessa mistura sua personalidade, permitindo que questões de classe, afeto, maternidade e diferença apareçam dentro de uma fábula cada vez mais imprevisível.
No Festival do Rio de 2017, o longa conquistou o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção, além dos prêmios de fotografia e atriz coadjuvante para Marjorie Estiano. Também recebeu o Prêmio Felix e o reconhecimento da crítica FIPRESCI.
Em Assunto de Família, Hirokazu Kore-eda parte de uma pergunta simples apenas na aparência. O que transforma um grupo de pessoas em uma família?
Osamu e seu filho sobrevivem, em parte, por meio de pequenos furtos. Em uma de suas saídas, encontram uma menina vivendo em uma situação de abandono e decidem levá-la para casa. A família tem poucos recursos e existe à margem de várias convenções sociais, mas construiu entre seus integrantes uma forma própria de cuidado.
Quando acontecimentos inesperados começam a revelar aquilo que cada personagem escondia, esses vínculos são colocados à prova. Kore-eda observa tudo com a delicadeza de quem sabe que afeto e moralidade nem sempre seguem as mesmas regras.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2018, o filme integrou o Panorama do Cinema Mundial do Festival do Rio daquele mesmo ano.

Daniel Blake passou a vida trabalhando como marceneiro. Depois de sofrer um problema cardíaco e receber orientação médica para não voltar ao trabalho, precisa recorrer ao sistema de benefícios sociais britânico pela primeira vez.
É aí que começa outro tipo de desgaste.
Em Eu, Daniel Blake, Ken Loach transforma formulários, computadores e regras burocráticas em obstáculos concretos para alguém que precisa apenas de condições para viver. No caminho, Daniel conhece Katie, uma mãe com duas crianças que também enfrenta dificuldades financeiras, e uma relação de solidariedade começa a nascer entre eles.
O filme venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2016 e, meses depois, integrou o Panorama do Cinema Mundial do Festival do Rio. A força permanece justamente no contraste entre um sistema impessoal e personagens que insistem em tratar uns aos outros como pessoas.
Poucos filmes tratam a proximidade entre vivos, mortos, memória e natureza como Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, de Apichatpong Weerasethakul.
Doente, Boonmee decide passar seus últimos dias em uma casa na floresta. Ali, pessoas que desapareceram de sua vida começam a retornar de formas inesperadas. Sua esposa morta surge durante um jantar. Seu filho reaparece transformado. Passado e presente deixam de parecer territórios completamente separados.
Apichatpong não apresenta esses acontecimentos como enigmas que precisam ser solucionados. Fantasmas, lembranças e vidas anteriores fazem parte de um mesmo fluxo, como se o fantástico pudesse ser apenas mais uma maneira de experimentar o cotidiano.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2010, o longa integrou o Panorama Mundial da 12ª edição do Festival do Rio no mesmo ano.

Em A Fita Branca, de Michael Haneke, uma pequena comunidade protestante do norte da Alemanha começa a ser perturbada por acontecimentos estranhos pouco antes da Primeira Guerra Mundial.
A narrativa retorna a esse período pela memória de um professor. Aos poucos, acidentes, punições e comportamentos inquietantes revelam um ambiente estruturado por autoridade, repressão e silêncio.
O mistério existe, mas Haneke parece interessado em algo maior do que descobrir quem fez o quê. Seu olhar se volta para a atmosfera moral da comunidade e para a maneira como obediência, humilhação e violência podem ser transmitidas entre gerações.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2009, A Fita Branca integrou o Panorama Mundial do 11º Festival do Rio naquele mesmo ano.
O Festival do Rio Filmes Imovision também pode ser pensado como uma conversa entre tempos diferentes do cinema.
Boi Neon e As Boas Maneiras carregam a memória da Première Brasil e do Troféu Redentor. Assunto de Família, Eu, Daniel Blake, Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas e A Fita Branca mostram outra faceta do festival, sua capacidade de aproximar o público brasileiro de títulos que acabavam de receber a principal premiação de Cannes.
Hoje, todos esses filmes podem continuar seu percurso na Reserva Imovision.
É uma maneira de fazer o festival durar um pouco mais. Não reproduzindo a experiência de uma première, claro, mas recuperando aquilo que realmente permanece depois que as luzes se acendem, os filmes e as conversas que eles ainda são capazes de provocar.
Além dos filmes e das mostras, o Festival do Rio possui premiações, atividades de mercado e diferentes formas de participação do público. Veja outras informações úteis para acompanhar a edição de 2026.
Sim. A edição de 2026 prevê diferentes oportunidades de acesso gratuito, com regras que dependem da sessão e do espaço.
Entre as iniciativas estão gratuidades em algumas sessões da Première Brasil no Cine Odeon e exibições do projeto Cinema Circulação em espaços como CineCarioca Penha, CineCarioca Nova Brasília e Parque Realengo Susana Naspolini.
O público também participa das premiações. Na Première Brasil, o voto popular escolhe seus favoritos entre categorias como longa de ficção, documentário e Novos Rumos.
Em 2026, as mostras internacionais Expectativa e Première Latina também contam com premiações definidas pelos espectadores.
O Prêmio Felix foi criado em 2014 e reconhece produções com temática LGBTQIAPN+ presentes na programação do festival.
A premiação inclui filmes brasileiros e internacionais e contempla categorias como melhor filme brasileiro, melhor filme internacional, melhor documentário e prêmio especial do júri.
O RioMarket é a área de mercado e negócios ligada ao Festival do Rio. A programação reúne profissionais do audiovisual em palestras, workshops, mesas, atividades de capacitação e oportunidades de encontro entre empresas, produtores e criativos.
Em 2026, o RioMarket acontece de 1º a 10 de outubro, paralelamente ao festival.
A sede da 28ª edição permanece no Armazém da Utopia, no Cais do Porto do Rio de Janeiro.
O espaço recebe encontros e debates do festival e também abriga atividades do RioMarket, reunindo público e profissionais do audiovisual durante os dias do evento.
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