Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Todo mês de outubro, São Paulo ganha um mapa diferente. Salas espalhadas pela cidade recebem filmes de países distantes, cineastas encontram espectadores pela primeira vez e títulos que acabaram de atravessar Cannes, Berlim, Veneza ou Locarno passam a fazer parte das conversas de quem percorre a programação.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo construiu essa relação com a cidade desde 1977. O que começou no MASP como parte das comemorações pelos 30 anos do museu se transformou em um dos eventos cinematográficos mais longevos do Brasil e em um ponto de encontro importante para a cinefilia brasileira.
Em 2026, a Mostra chega à sua 50ª edição, celebrando cinco décadas de descobertas, encontros e filmes que muitas vezes encontraram ali uma de suas primeiras plateias no país. A edição acontece de 15 a 29 de outubro e reúne 380 títulos de 93 países.
Parte dessa história também pode ser reencontrada na Reserva Imovision, em obras que foram exibidas ou premiadas em diferentes momentos do festival. De Hector Babenco a Abbas Kiarostami, de Jafar Panahi a Hirokazu Kore-eda, há quase cinquenta anos de cinema para percorrer.
A história da Mostra de São Paulo começa antes de sua primeira edição. Em 1974, o crítico Leon Cakoff assumiu o Departamento de Cinema do Museu de Arte de São Paulo, o MASP, onde passou a organizar sessões e programações dedicadas especialmente a obras estrangeiras que dificilmente chegavam ao circuito comercial brasileiro.
Em 1977, quando o MASP comemorava 30 anos, esse trabalho ganhou uma dimensão maior. Cakoff criou a primeira Mostra Internacional de Cinema, realizada entre 21 e 31 de outubro. O evento nasceu em um período em que o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar e a censura impunha obstáculos constantes à circulação cinematográfica. A própria organização precisou encontrar caminhos pouco convencionais para trazer determinados filmes ao país.
Desde o início, porém, havia algo que aproximava diretamente público e programação. Os espectadores podiam votar nos filmes exibidos, e o primeiro Prêmio do Público foi entregue a Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, de Hector Babenco. A votação se tornaria uma das tradições mais marcantes do evento.
Durante os primeiros sete anos, a Mostra permaneceu ligada ao MASP. Em 1984, na oitava edição, tornou-se independente e passou a ocupar ainda mais intensamente a cidade. Aquele ano também ficaria marcado pelo confronto com a censura. Uma liminar havia permitido que os filmes fossem exibidos sem avaliação prévia, mas a decisão foi cassada e a Polícia Federal interrompeu uma sessão de O Estado das Coisas, de Wim Wenders, no Cine Metrópole. A Mostra ficou suspensa por quatro dias.
A história do evento, portanto, não é apenas uma sucessão de estreias e premiações. Ela também acompanha a defesa da circulação de filmes e da possibilidade de escolher o que assistir.
Muito antes de o streaming tornar cinematografias distantes acessíveis em poucos cliques, descobrir determinados diretores dependia de festivais, cineclubes, retrospectivas e salas especializadas.
Nesse cenário, a Mostra Internacional de Cinema tornou-se uma espécie de janela anual para o mundo. Filmes iranianos, japoneses, africanos, latino-americanos, europeus e de tantas outras origens encontraram espectadores brasileiros em um momento no qual boa parte dessas obras dificilmente chegaria ao circuito convencional.
É também por isso que a Mostra está tão ligada à ideia de cinema em São Paulo. Ao crescer, o evento saiu de um único espaço e passou a ocupar diferentes salas da capital, incorporando a própria circulação pela cidade à experiência de acompanhar um festival.
Ao longo das décadas, diretores que ainda estavam no início de suas carreiras passaram pela programação e posteriormente se tornaram referências internacionais. Jafar Panahi é um exemplo especialmente significativo. Seu primeiro longa, O Balão Branco, recebeu o principal reconhecimento do júri da Mostra em 1995. Três décadas depois, a relação do cineasta iraniano com o evento continuava viva.
Um festival de cinema em São Paulo pode durar duas semanas. A relação criada com determinados filmes, felizmente, costuma ser muito mais longa.
O voto dos espectadores está presente desde a primeira edição e atravessou as transformações do festival.
Hoje, ele também participa da dinâmica da Competição Novos Diretores, dedicada a realizadores que apresentam seu primeiro ou segundo longa-metragem. Os filmes mais bem avaliados pelo público avançam para a apreciação do júri, responsável pela escolha dos vencedores do Troféu Bandeira Paulista, criado pela artista Tomie Ohtake.
Ao longo dos anos, as formas de reconhecimento se ampliaram. Além do Prêmio do Júri Mostra de São Paulo e das escolhas do público, diferentes edições incluem premiações da crítica e reconhecimentos concedidos por entidades e parceiros.
Essa combinação ajuda a tornar a lista de filmes premiados particularmente interessante. Um título pode ser celebrado por especialistas, conquistar o público ou encontrar reconhecimento nas duas frentes.
A trajetória do Troféu Bandeira Paulista revela também como a Mostra acompanhou cineastas ainda no começo de suas carreiras. Entre os realizadores já premiados pelo júri estão Jafar Panahi, Thomas Vinterberg, Alejandro González Iñárritu e Marcelo Gomes.
Em 2026, aquela iniciativa criada dentro do MASP chega à 50ª edição.
Entre 15 e 29 de outubro, a programação reúne 380 títulos de 93 países, exibidos em 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs da capital paulista. A edição comemorativa também celebra a memória do evento com exposições, livros e um acervo digital dedicado às cinco décadas da Mostra.
Olhar para esses cinquenta anos significa perceber quantos filmes passaram pelas telas paulistanas antes de se tornarem clássicos, quantos realizadores foram apresentados ao público brasileiro e quantas histórias pessoais de cinefilia começaram numa sessão escolhida quase por acaso no meio de uma programação imensa.
A Coleção 50 anos Mostra de São Paulo na Reserva Imovision permite revisitar parte desse percurso em casa. Entre os títulos disponíveis estão vencedores do público, do júri e da crítica de diferentes décadas.
Os filmes abaixo não pertencem todos ao mesmo período, país ou tradição cinematográfica. Esse é justamente o ponto.
Juntos, eles ajudam a contar a história da Mostra de Cinema de São Paulo pela própria programação, partindo da edição inaugural e chegando a produções premiadas quase cinco décadas depois.

É difícil imaginar um título mais adequado para iniciar esse percurso.
Em Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, Hector Babenco acompanha a trajetória de um assaltante de bancos que ocupa as manchetes brasileiras dos anos 1970 com crimes e fugas sucessivas. À medida que o cerco se fecha, o filme expõe também conexões entre criminalidade, violência policial e estruturas de poder.
O longa fez parte da primeira Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1977, e saiu de lá com o Prêmio do Público. Sua exibição foi ovacionada e antecipou a forte repercussão que o filme teria no país.
Quase cinquenta anos depois, ele permanece ligado à própria origem do festival.

Com Através das Oliveiras, Abbas Kiarostami transforma uma filmagem em matéria para outro filme.
Uma equipe trabalha em uma região rural do Irã marcada por um terremoto. Entre os moradores escolhidos para atuar estão Hossein e Tahereh. Ele está apaixonado por ela, e as repetições das cenas começam a se confundir com sua tentativa de se aproximar da jovem.
Cinema e vida cotidiana vão se infiltrando um no outro até que já não pareça tão simples determinar onde termina um e começa o outro.
Exibido na 18ª Mostra, em 1994, o longa recebeu o Prêmio da Crítica.

Antes de Táxi Teerã, O Círculo, Sem Ursos ou da Palma de Ouro, houve uma menina tentando comprar um peixinho dourado.
O Balão Branco, primeiro longa de Jafar Panahi, acompanha Razieh pelas ruas de Teerã. Ela convence a mãe a lhe dar dinheiro para comprar um peixe para as celebrações do Ano Novo iraniano, mas uma tarefa aparentemente simples se transforma em uma sucessão de encontros e pequenos obstáculos.
A câmera permanece próxima da infância e do cotidiano, encontrando suspense e humanidade em acontecimentos mínimos.
Na 19ª Mostra, em 1995, o longa recebeu o Troféu Bandeira Paulista do júri. A premiação marcou o início de uma relação duradoura entre Panahi e a Mostra.

Em 1942, Johann atravessa o sertão nordestino em um caminhão vendendo aspirinas. Alemão, ele tenta se manter distante da guerra que consome a Europa. No caminho, encontra Ranulpho, um brasileiro que também deseja partir, mas por outras razões.
Em Cinema, Aspirinas e Urubus, Marcelo Gomes aproxima esses dois deslocamentos enquanto seus personagens percorrem pequenas cidades exibindo filmes promocionais para vender o medicamento.
O cinema aparece dentro do próprio filme como novidade, espetáculo e promessa de outro mundo.
Na 29ª Mostra, em 2005, o longa recebeu o prêmio do júri de Melhor Filme, enquanto João Miguel foi reconhecido como Melhor Ator. A produção também conquistou o Prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro.
Foi ainda a primeira produção brasileira a conquistar o principal prêmio do júri internacional da Mostra.
Em Lições de Harmonia, do cazaque Emir Baigazin, Aslan é um adolescente de 13 anos que sofre humilhações na escola.
A violência não aparece apenas nos confrontos evidentes. Ela invade rotinas, relações de poder e pequenos gestos até modificar a maneira como o garoto observa o mundo ao redor.
O rigor visual de Baigazin transforma a experiência de Aslan em um estudo inquietante sobre isolamento, hierarquia e brutalidade.
Na 37ª Mostra, em 2013, Lições de Harmonia venceu o Prêmio do Júri de Melhor Filme de Ficção e recebeu também um prêmio especial da crítica.
Hirokazu Kore-eda costuma encontrar grandes questões familiares nos menores acontecimentos do cotidiano, e Depois da Tempestade é um dos exemplos mais delicados dessa habilidade.
Ryota já teve ambições como escritor, mas agora trabalha como detetive particular, perde dinheiro em jogos e não consegue cumprir regularmente suas responsabilidades com o filho. Enquanto vê a antiga família seguir em frente, continua preso à ideia da vida que gostaria de ter levado.
Então chega uma tempestade e obriga parte da família a permanecer sob o mesmo teto durante uma noite.
Exibido na 40ª Mostra, em 2016, o filme recebeu o Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional.

Benni tem nove anos e parece não caber em nenhuma das estruturas criadas para acolhê-la.
Em Transtorno Explosivo, de Nora Fingscheidt, a menina passa por instituições e cuidadores enquanto manifesta explosões de raiva que afastam justamente as pessoas encarregadas de ajudá-la. Por trás da agressividade, permanece um desejo muito simples e doloroso: voltar a viver com a mãe.
O filme evita respostas confortáveis enquanto acompanha profissionais tentando encontrar uma solução para uma criança que o próprio sistema já não sabe como receber.
Na 43ª Mostra, em 2019, Transtorno Explosivo, cujo título original é System Crasher, dividiu o Prêmio do Júri de Melhor Filme de Ficção com Dente de Leite.

O primeiro longa de Sarah Friedland acompanha uma mulher de oitenta anos durante sua adaptação à vida assistida.
Em Toque Familiar, memória, identidade, autonomia e desejo são observados sem reduzir a velhice apenas à perda. Há mudanças e conflitos, mas também permanece uma pessoa tentando compreender o espaço que agora ocupa e preservar a própria individualidade.
Na 48ª Mostra, em 2024, o longa recebeu o Prêmio do Júri de Melhor Filme de Ficção.
O reconhecimento veio no mesmo ano em que a obra também havia conquistado importantes prêmios no Festival de Veneza, incluindo melhor direção e melhor atriz na seção Orizzonti e o Leão do Futuro de melhor filme de estreia.

Em uma ilha vulcânica de Cabo Verde, quase todos parecem querer partir. Nana aprende justamente o movimento contrário.
Hanami, de Denise Fernandes, acompanha a personagem desde a infância, marcada pela ausência da mãe e por uma misteriosa doença, até a adolescência, quando esse passado volta a se aproximar.
Entre sonho e realidade, paisagem e memória, o filme transforma a ilha em mais do que cenário. Permanecer, partir e pertencer tornam-se perguntas que acompanham cada fase da vida de Nana.
Na 48ª Mostra, Hanami também recebeu o Prêmio do Júri de Melhor Filme de Ficção, dividindo o reconhecimento com Toque Familiar. A produção ainda conquistou o Prêmio Brada de Melhor Direção de Arte, para Mathé.
Percorrer esses nove títulos é atravessar quase toda a trajetória da Mostra.
Na Coleção 50 anos Mostra de São Paulo, a Reserva Imovision reúne filmes ligados a diferentes capítulos dessa história.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chega aos cinquenta anos porque nunca foi apenas uma lista de títulos. Sua história é feita também das sessões, das descobertas e daquela sensação tão própria dos festivais de entrar em uma sala sem saber exatamente o que encontrará e sair dela querendo conversar sobre o filme por muito mais tempo.
Cinco décadas de história também deram origem a homenagens, projetos e diferentes maneiras de aproximar o público do cinema. A seguir, reunimos algumas curiosidades complementares sobre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
O Prêmio Leon Cakoff leva o nome do criador da Mostra e homenageia personalidades de destaque do cinema.
A premiação mantém viva a memória de Cakoff e reconhece trajetórias que contribuíram de maneira significativa para a cultura cinematográfica. Em diferentes edições, cineastas e profissionais brasileiros e internacionais já receberam a homenagem.
O Prêmio Humanidade é uma homenagem concedida pela Mostra a personalidades cuja trajetória artística possui relevância especial para o cinema e para questões humanas, sociais e culturais.
Ele não faz parte da disputa competitiva entre os filmes de uma edição, funcionando como reconhecimento a uma carreira e à contribuição de seu homenageado.
Sim. A Mostra conta com a Mostrinha, programação dedicada ao público infantil e juvenil.
Em 2026, ela chega à terceira edição e reúne 20 longas e um curta-metragem de 20 países, com produções que exploram diferentes técnicas, culturas e maneiras de representar a infância.
Sim. Em celebração à 50ª edição, a Mostra lançou um acervo digital dedicado à memória de suas cinco décadas.
O projeto reúne informações sobre edições, filmes e documentos relacionados à trajetória do festival e também disponibiliza para consulta a narrativa escrita por Leon Cakoff sobre os primeiros trinta anos da Mostra.
Não. Uma das características do evento é ocupar diferentes pontos da cidade.
Na edição de 2026, as sessões estão distribuídas por 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs da capital. Essa presença em diferentes endereços reforça uma relação construída ao longo das décadas entre a Mostra e a experiência de assistir a cinema em São Paulo.
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