Meu Bolo Favorito: destaque do cinema iraniano no Brasil

Famosas por suas narrativas de autodescoberta e amadurecimento, as obras conhecidas como “coming-of-old-age” abordam com sensibilidade, coragem e um toque de poesia as vivências, dores e alegrias das pessoas maduras. Procurando por um filme apaixonante nessa temática? “Meu Bolo Favorito”, produção iraniana, tem tudo para ser a sua grande aposta!
Dirigido por Maryam Moghaddam e seu marido Behtash Sanaeeha, a nova sensação do cinema iraniano tem conquistado muitos corações com sua história emocionante e seus personagens inesquecíveis. Agora, também nos cinemas do Brasil!
Vamos conhecer um pouco mais sobre essa obra – e, de quebra, sair da mesmice hollywoodiana? Vem com a gente!
Considerado um dos mais importantes do mundo, o cinema iraniano vem se destacando nas últimas décadas com produções cultuadas e aclamadas em festivais internacionais e de renome.
Com alta carga poética, narrativas sensíveis e realistas e uma abordagem política e social impactante, as produções do Irã atraem um público cada vez mais amplo e interessado. Além disso, seu estilo autoral e sua experimentação técnica fazem desse cinema uma aula cinematográfica para os cinéfilos de plantão.
Mas nem tudo são flores: para que os filmes iranianos saiam do papel e ganhem vida, é preciso ter coragem e disposição para enfrentar a censura governamental e as restrições orçamentárias, imposições impostas por uma repressão rígida de um governo teocrático
Mesmo com todas essas dificuldades, o trabalho cinematográfico do país não se deixa abater. A partir do movimento da “Nova Onda Iraniana”, na década de 1960, o cinema iraniano vem ganhando ainda mais força e florescendo a olhos vistos com filmes inesquecíveis como “Sabor de Cereja” (1997), de Abbas Kiarostami, e “A Separação” (2011), de Asghar Farhadi.
Se você estava precisando de uma forcinha a mais para explorar o universo sensível e ousado do cinema iraniano, continue lendo esse texto que você não vai se arrepender.
Um filme delicadamente preparado para lidar com os temas da liberdade e da solidão – temáticas nem sempre fáceis, nem sempre leves e constantemente abordadas de uma maneira que o clichê toma conta da tela. Não é assim em “Meu Bolo Favorito”, incrível estreia iraniana dirigida pelo casal Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha.
Quando Mahin (Lili Farhadpour), uma viúva de 70 anos, se vê completamente sozinha na sala da própria casa bem cuidada, ela decide que é hora de procurar um companheiro para compartilhar a sua velhice, seu jardim e seu bolo favorito. Esse é o ponto de partida de Meu Bolo Favorito, mas essa premissa simples está longe de resumir a beleza dos 96 minutos de filme.
Muito além de abordar apenas a temática da solidão na terceira idade, a obra de Moghaddam e Sanaeeha chama o espectador para compartilhar uma experiência de amor – e o amor entre idosos, sabemos, nem sempre é bem recebido pelas pessoas de outras idades e gerações.
Depois de 30 anos morando sozinha, sem se envolver amorosamente com ninguém, Mahin decide mudar sua situação. De maneira despretensiosa, mas decidida, ela se aproxima de Faramarz (Esmaeel Mehrabi), um taxista do Teerã, e eles decidem passar uma noite juntos.
Sem deixar o filme cair na melancolia, os diretores e atores bancam com primor a necessidade de retratar a vida solitária dos dois personagens principais – que, quando juntos, revelam o frescor da vida, das novas experiências e da ternura genuína em compartilhar um momento de alegria e de amor.
Mas a busca por afeto (uma necessidade básica em qualquer fase da vida), no cinema iraniano, também é uma busca por liberdade. Em um país dominado pela censura política – que rege os espaços públicos, mas também os privados –, andar na rua, ser uma mulher independente e se divertir na própria casa podem ser tarefas que requerem uma pitada de desobediência civil misturada com orgulho.
E assim se constrói Meu Bolo Favorito, que tem tudo para ser um dos grandes títulos do cinema contemporâneo do Irã.
Sucesso de bilheteria na Europa, Meu Bolo Favorito foi exibido pela primeira vez no Brasil no Festival do Rio em novembro de 2024, onde teve suas sessões esgotadas. Sua estreia nos cinemas brasileiros aconteceu no dia 09 de janeiro deste ano e, desde lá, vem deixando muita gente encantada com a história simples e sensível de Mahin e Faramarz.
Na última Berlinale, o longa levou dois importantes prêmios: o Prêmio do Júri Ecumênico – representado por membros das Igrejas Protestante e Católica e que premia diretores e filmes que são capazes de sensibilizar o público através de assuntos com grande valor humano, social ou espiritual – e o Prêmio FIBPRESCI – concedido pela crítica internacional.
Descrito como “uma fatia deliciosa da vida” pelo site de entretenimento Variety e como “uma história que absolutamente precisa ser contada” pelo site de resenhas Loud And Clear Reviews, Meu Bolo Favorito vem sendo reconhecido pela qualidade não só do seu roteiro, mas também da sua direção eficiente e das suas atuações primorosas.
Realizadores do documentário “The Invincible Diplomacy of Mr. Naderi” (2018) e dos longas “Risk of Acid Rain” (2015) e “O Perdão” (2020), o casal de diretores Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha sofreu sanções por parte do governo iraniano por criticar a opressão do próprio país em suas obras.
Após a realização do Meu Bolo Favorito, os diretores tiveram dificuldades para recuperar seus passaportes e não conseguiram os vistos necessários para promover o filme no exterior. Apesar dos problemas criados pelo governo iraniano, o longa vem conquistando seu público em diferentes cantos do mundo.
Grande parte do sucesso do filme se deve ao seu elenco. estrelado por Lily Farhadpour e Esmail Mehrabi. Enquanto a história se constrói, os atores entregam atuações cheias de sensibilidade, com uma química que faz com que o filme cumpra o seu propósito de emocionar sem perder o bom humor.
O filme começou a ser exibido nos cinemas brasileiros no início de janeiro e se encontra em mais de 20 salas do país, em cidades de 9 estados – como Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, Porto Alegre e Salvador. Se você não quer perder a oportunidade de assistir a essa bela obra em uma tela grande, a hora é agora!
Nas últimas décadas, o cinema iraniano vem conquistando um grande número de fãs ao redor do mundo. Seus filmes audaciosos e sensíveis, marcados pela abordagem de grandes temas universais, carregam uma pitada de bom humor ao mesmo tempo em que refletem as condições de um povo que se vê buscando por liberdade e igualdade.
“Filho-Mãe”, de Mahnaz Mohammadi, nos apresenta uma história contundente sobre como costumes culturais e religiosos podem influenciar diretamente na vida de uma família. Em “Crônicas do Irã”, de Ali Asgari & Alireza Khatami, acompanhamos 12 pequenos contos que ilustram o cotidiano de um país conservador como o Irã.
Para quem gosta de um drama muito bem escrito, “A Separação”, de Asghar Farhadi, é a pedida da vez: neste filme, os personagens se vêem entrelaçados em uma trama que, apesar de banal à primeira vista, revela uma teia de mentiras e confrontos permeada pela sutilezas e dificuldades da cultura iraniana.
Em mais um drama que coloca o papel do protagonismo feminino na jogada, “Yalda”, de Massoud Bakhshi, lida com as noções de culpa e perdão enquanto nos coloca à frente do sensacionalismo da televisão e dos seus programas de auditório.
Já “3 Faces”, de Jafar Panahi, é um típico filme do diretor iraniano (que, não custa lembrar, foi proibido pelo governo do Irã de filmar no país durante 20 anos): brincando com os limites entre ficção e realidade, a produção busca refletir sobre as proibições culturais impostas às mulheres que desejam independência.
Filmados em anos e por diretores distintos, esses filmes possuem algo em comum: cada um deles busca oferecer uma perspectiva fascinante sobre a vida, a cultura e os desafios no Irã contemporâneo. Vale tirar um tempo para atualizar a sua lista de filmes assistidos com alguma produção iraniana!
Para que uma experiência cinematográfica seja inesquecível, não é preciso uma super produção, um elenco famoso que desfila todo mês por Hollywood ou uma trama envolvendo futuros distópicos e seres com poderes extraordinários. Às vezes, falar da vida cotidiana e das questões que enfrentamos aqui, bem ao nosso redor, é suficiente.
Meu Bolo Favorito é um filme para quem busca significado no simples. No amor de compartilhar um pedaço de sobremesa, na ternura de uma dança descompromissada, na beleza de uma conversa sincera.
Uma ida ao cinema para conferir essa poética obra na grande tela pode fazer você refletir sobre a própria vida e, claro, celebrar ainda mais tudo aquilo que o cinema iraniano tem a oferecer. Vamos?
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