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Matheus Sodré escolhe 13 filmes para ver na Imovision

Imagem do Matheus Sodré sorrindo de camiseta branca e uma televisão ao lado.

Hoje, 16 de abril, entra na Reserva Imovision uma coleção especial com curadoria de Matheus Sodré (@sodremat), influenciador e pesquisador conhecido por criar conteúdos com foco em cultura, internet e tecnologia, com presença no YouTube com o podcast “lan house”.

O que essa curadoria propõe não é uma maratona confortável nem uma sequência de “acertos fáceis”. O que ela oferece é outra coisa, uma travessia por obras que deixam marca, seja pela atmosfera, pelo risco formal, pela potência emocional ou pela maneira como parecem continuar reverberando depois do fim. É uma coleção para quem gosta de cinema que inquieta, desarma e permanece.

Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer

Cena do filme “Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer”

Dirigido por David Lynch, Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer acompanha os últimos dias de Laura antes dos acontecimentos que deram origem à série. O filme tira a personagem do lugar de enigma e a devolve ao centro da experiência, mergulhando em sua dor, em seu colapso e na estranha duplicidade entre aparência e abismo. A sensação é a de entrar em um universo já conhecido, mas por uma porta muito mais íntima e devastadora.

O longa foi selecionado para a competição pela Palma de Ouro em Cannes 1992. Hoje, ele é visto como uma peça essencial do universo de Lynch, justamente por transformar mistério em tragédia emocional sem perder a dimensão onírica e perturbadora que marca sua obra.

O Ódio

Em O Ódio, acompanhamos um dia na vida de três jovens da periferia parisiense depois de uma noite de confrontos com a polícia. O filme parte dessa situação limite para observar o desgaste, a raiva e a sensação de aprisionamento que atravessam a vida urbana quando a violência já faz parte do cenário. Tudo parece carregado de tensão, como se a cidade inteira estivesse à beira de alguma coisa.

Dirigido por Mathieu Kassovitz, o filme venceu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes de 1995. É um daqueles títulos que continuam vivos porque não filmam apenas a explosão, filmam o que vem antes dela.

Os Amantes do Rio

Em Os Amantes do Rio, acompanhamos Mardar, um jovem motoboy que cruza Xangai fazendo entregas para clientes de todo tipo, sempre em movimento e sem se envolver demais com aquilo que transporta. Essa lógica muda quando ele passa a trabalhar para um contrabandista e, nesse contexto, se aproxima de Moudan, a filha adolescente do homem. Entre os dois nasce uma relação amorosa, mas o vínculo rapidamente se fragiliza quando a desconfiança entra em cena e transforma o que parecia ser encontro em ruptura.

O que torna o filme tão interessante é justamente a forma como ele parece deslocar o romance para um terreno mais instável, onde amor, risco e mal-entendido caminham juntos. Os Amantes do Rio desperta curiosidade porque sugere uma história em que o sentimento não aparece como abrigo, mas como algo atravessado por incerteza, desaparecimento e vertigem. É um filme que parece filmar o amor como quem filma a correnteza, sempre em movimento, sempre escapando de uma forma fixa.

As Boas Maneiras

Pôster do filme “As Boas Maneiras”

Em As Boas Maneiras, uma enfermeira da periferia de São Paulo é contratada por uma mulher rica e misteriosa para acompanhá-la durante a gravidez. A relação entre as duas se intensifica e, aos poucos, o filme vai se deslocando para um território mais estranho, em que afeto, medo, fantasia e desejo passam a coexistir.

Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o longa venceu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno. É um filme que chama atenção pela liberdade com que mistura gêneros e pela forma como faz do corpo, da maternidade e do vínculo entre mulheres uma matéria cinematográfica profundamente singular.

Desejo e Obsessão

Em Desejo e Obsessão (Trouble Every Day), Shane e June chegam a Paris em lua de mel, mas a viagem logo revela outra camada. Enquanto June tenta habitar esse começo de vida a dois, Shane se afasta e passa a procurar um antigo colega cientista e a mulher dele, Coré, ligados a um passado que envolve doença, desejo e uma pulsão violenta difícil de conter. A partir daí, o filme constrói uma atmosfera em que erotismo, medo e compulsão deixam de ser experiências separadas.

Dirigido por Claire Denis, o filme foi exibido no Festival de Cannes de 2001 e segue despertando interesse justamente por não tratar o horror como efeito fácil. O que ele parece investigar é um desejo levado ao limite, quando atração, fome e destruição começam a se confundir. Mais do que um thriller erótico convencional, Desejo e Obsessão se impõe como um filme febril, sensorial e profundamente inquieto, daqueles que trocam explicação por atmosfera e deixam o desconforto se instalar aos poucos.

A Sonata de Tóquio

Em A Sonata de Tóquio, uma família japonesa de classe média começa a se desintegrar quando o pai perde o emprego e decide esconder isso de todos. A partir daí, o cotidiano vai sendo tomado por silêncios, pequenas mentiras e deslocamentos que parecem alterar a estrutura da casa por dentro.

Dirigido por Kiyoshi Kurosawa, o filme venceu o Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard, em Cannes 2008. O que o torna tão forte é a maneira como transforma crise econômica e esgotamento familiar em um drama íntimo atravessado por tensão, silêncio e um mal-estar que cresce aos poucos.

Contos Imorais

Cena do filme Contos Imorais

Contos Imorais, de Walerian Borowczyk, reúne quatro histórias ambientadas em épocas diferentes e ligadas por uma abordagem frontal do erotismo, da transgressão e da fantasia. É um filme que parece existir sem medo do excesso e sem vontade de se justificar, como se a provocação fosse também parte do seu modo de pensar a imagem.

Contos Imorais – Trailer

Mais do que uma coleção de episódios, ele funciona como um exercício de imaginação erótica e histórica. É um título que chama atenção porque leva a seleção para um lugar mais radical, menos conciliador e mais assumidamente provocador.

A Professora de Piano

Em A Professora de Piano, acompanhamos Erika Kohut, uma professora de música emocionalmente reprimida, presa a uma relação sufocante com a mãe, até que a aproximação de um aluno mais jovem faz seu mundo começar a rachar. O filme observa desejo, poder e autodestruição com uma frieza quase cortante, sem aliviar o desconforto que produz.

Dirigido por Michael Haneke, o longa venceu o Grand Prix em Cannes 2001, além dos prêmios de Melhor Atriz para Isabelle Huppert e Melhor Ator para Benoît Magimel. É um filme que permanece porque encara o desejo não como libertação, mas como zona de conflito e violência íntima.

Violência Gratuita

Imagem de pessoa com rosto tapado por pano branco ilustrando a capa do filme Violência Gratuita

Em Violência Gratuita, a história acompanha um casal e o filho durante uma temporada de descanso à beira de um lago, até que a chegada de dois jovens aparentemente educados transforma esse espaço de conforto em um campo de terror psicológico, fazendo a família refém com jogos de humilhação, perversão e violência.

Mais do que um suspense sobre invasão, o filme se impõe como uma reflexão incômoda sobre espetáculo, crueldade e o modo como olhamos para a violência quando ela vira imagem.

Hotel Mekong

Em Hotel Mekong, Apichatpong Weerasethakul nos leva para um hotel no nordeste da Tailândia, às margens do rio Mekong, fronteira natural com o Laos. É nesse espaço, entre quartos, varandas e a correnteza do rio, que o filme começa a se desenhar como uma experiência em suspensão, misturando ensaio, ficção e algo que escapa aos dois. A partir dali, surgem relações e presenças que parecem ligar uma mãe vampira e sua filha, jovens amantes e a paisagem ao redor, como se tudo existisse em um mesmo estado de sonho, memória e invenção.

O que torna Hotel Mekong tão instigante é justamente essa recusa em separar com nitidez realidade e imaginação. Em vez de conduzir o espectador por uma narrativa fechada, o filme parece preferir um fluxo mais livre, em que imagens, sons e vínculos afetivos se contaminam o tempo todo. O rio, a música e os personagens não funcionam apenas como elementos de cena, mas como forças que criam atmosfera e deslocamento. É um filme que desperta curiosidade porque sugere menos uma história para ser decifrada e mais um espaço para ser atravessado.

Boi Neon

Cena do filme “Boi Neon”

Em Boi Neon, acompanhamos Iremar, um homem que trabalha com vaquejada, mas sonha em desenhar roupas. A partir dele, o filme constrói um mundo em que corpo, trabalho, desejo e imaginação se misturam de forma inesperada. O sertão, aqui, não aparece como imagem fixa, mas como espaço em transformação.

Dirigido por Gabriel Mascaro, o filme venceu o Prêmio Especial do Júri na mostra Orizzonti do Festival de Veneza. É uma obra que chama atenção por desmontar clichês sobre masculinidade e por filmar o Brasil com sensualidade, estranheza e liberdade formal.

Gosto de Cereja

Dirigido por Abbas Kiarostami, Gosto de Cereja acompanha Badii, um homem de meia-idade que percorre a paisagem ao redor de Teerã em busca de alguém disposto a ajudá-lo em uma tarefa extrema. Ele já preparou sua própria cova, sob uma cerejeira nas montanhas, e precisa encontrar quem aceite enterrá-lo depois de sua morte. A partir dessa premissa radicalmente simples, o filme constrói uma travessia feita de encontros, conversas e silêncios que vão alterando a forma como olhamos para esse homem e para o mundo ao redor dele.

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1997, o filme chama atenção justamente por transformar uma questão imensa em um cinema de extrema contenção. Em vez de buscar impacto fácil, Gosto de Cereja parece confiar no tempo, na escuta e na paisagem para fazer emergir suas perguntas mais profundas. É um daqueles filmes que despertam curiosidade pela maneira como fazem do percurso um espaço de reflexão, dúvida e permanência.

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, acompanhamos um geólogo atravessando o sertão em trabalho, enquanto a estrada e a narração revelam um estado afetivo em ruína. O filme transforma o deslocamento em linguagem, como se a paisagem e a solidão fossem dizendo, aos poucos, aquilo que o personagem não consegue resolver dentro de si.

Dirigido por Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, é um filme que permanece pela melancolia seca, pelo uso da voz e pela forma como faz da travessia física também uma travessia emocional. Dentro dessa seleção, ele funciona como uma espécie de respiro triste e muito bonito.

Uma coleção para ver sem pressa

O que a curadoria de Matheus Sodré sugere é menos um recorte temático e mais um estado de cinema. São filmes que não se acomodam, que não se esgotam em uma única leitura e que, por razões muito diferentes, continuam chamando o espectador para dentro.A coleção especial entrou hoje na Reserva Imovision como um convite muito claro: o de assistir com mais curiosidade, mais disponibilidade e menos pressa. E, no caso de uma seleção como esta, talvez seja exatamente assim que esses filmes devem ser encontrados.

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