Cinema

Cinema africano: produções disponíveis na Reserva Imovision

Cena de Black Tea, destaque do cinema africano

Falar em cinema africano significa entrar em um território muito maior do que qualquer definição única conseguiria abarcar. São dezenas de países, línguas, tradições cinematográficas e experiências históricas que encontraram na tela maneiras próprias de falar sobre independência, família, desejo, migração, política, memória, identidade e transformação.

Durante muito tempo, boa parte das imagens do continente que circulavam internacionalmente eram produzidas por olhares externos. A partir das independências africanas e da consolidação de novas gerações de cineastas, o cinema também se tornou uma forma de recuperar o direito de narrar a própria experiência.

Essa história continua em movimento. Hoje, cineastas do continente e da diáspora atravessam gêneros, circulam por grandes festivais internacionais e constroem filmes que recusam a ideia de uma África homogênea. Há romances, sátiras, dramas políticos, realismo mágico, histórias de migração, comédias e obras que dialogam diretamente com fantasia e cinema de gênero.

Entre 10 e 23 de setembro de 2026, parte dessa diversidade ganha uma janela especial na Reserva Imovision. Em parceria com a Mostra de Cinemas Africanos, a plataforma recebe uma coleção temporária com dez títulos selecionados pela curadoria do festival.

Um breve percurso pela história do cinema africano

A história das imagens em movimento na África começa ainda durante o período colonial, mas por muito tempo a possibilidade de produzir e controlar essas imagens esteve concentrada nas mãos de estruturas europeias.

A mudança política provocada pelas independências de diversos países africanos, sobretudo a partir dos anos 1960, também abriu espaço para uma geração interessada em construir um cinema pensado a partir do próprio continente.

Um nome fundamental nesse processo é o senegalês Ousmane Sembène. Escritor antes de se tornar cineasta, Sembène enxergava o cinema como uma ferramenta capaz de alcançar públicos muito mais amplos do que a literatura. Filmes como Borom Sarret, de 1963, e  Garota Negra (também conhecido como A Negra de…), de 1966, tornaram-se marcos de uma cinematografia interessada em observar colonialismo, trabalho, desigualdade e identidade a partir de uma perspectiva africana.

Mas Sembène nunca esteve sozinho. Paulin Soumanou Vieyra, Djibril Diop Mambéty, Med Hondo, Sarah Maldoror e muitos outros realizadores ajudaram a desenvolver diferentes linguagens e formas de produção.

Outro marco importante veio em 1969, com a criação do FESPACO, em Ouagadougou, Burkina Faso. O festival se consolidou como um dos principais pontos de encontro do cinema produzido no continente e da diáspora africana, criando espaço para circulação, debate e reconhecimento de obras que enfrentavam dificuldades para chegar às salas.

Nas décadas seguintes, novas gerações ampliaram ainda mais esse mapa. O cinema passou a dialogar com mudanças urbanas, migrações, conflitos políticos, juventude, tradição, sexualidade e cultura popular, ao mesmo tempo que diferentes indústrias nacionais encontravam seus próprios modelos de produção.

Qual é a importância do cinema africano?

A importância do cinema africano está também na possibilidade de substituir imagens prontas por experiências concretas.

Quando um continente inteiro aparece no imaginário internacional apenas por meio de guerra, pobreza ou exotismo, o cinema pode devolver complexidade àquilo que foi transformado em estereótipo. Uma cidade volta a ser habitada por pessoas. Uma tradição passa a ser discutida por quem vive dentro dela. Uma experiência de migração deixa de ser número e ganha rosto, memória e desejo.

Isso não significa que os cineastas tenham a obrigação de representar seus países ou explicar sua cultura para o restante do mundo. Parte da força dessas obras está justamente na liberdade de contar histórias íntimas, estranhas, engraçadas, românticas ou fantásticas sem precisar funcionar como cartão de apresentação de um continente.

A circulação internacional permanece, porém, um desafio. Financiamento, distribuição e acesso ainda limitam a chegada de muitas produções a outros públicos.

É justamente nesse ponto que festivais, mostras e plataformas de streaming desempenham um papel importante. Fazer um filme circular significa permitir que ele encontre outros espectadores e que a ideia de cinema africano se torne cada vez menos associada a poucas referências.

Mostra de Cinemas Africanos chega à 9ª edição

Criada em 2018, a Mostra de Cinemas Africanos nasceu com o objetivo de ampliar a circulação do audiovisual contemporâneo africano no Brasil.

Desde então, o projeto construiu uma programação contínua de exibições, encontros e atividades de formação, tornando-se um importante espaço de aproximação entre espectadores brasileiros e cinematografias que ainda encontram barreiras de distribuição no país.

Em 2026, a Mostra chega à 9ª edição com uma proposta inédita dentro de sua trajetória: dessa vez, o foco curatorial está no cinema de gênero, observando como cineastas africanos trabalham ficção científica, terror, suspense, comédia, ação e narrativas sobrenaturais a partir de referências e estéticas próprias.

A programação presencial acontece de 10 a 16 de setembro no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, e segue de 17 a 23 de setembro em Salvador, com sessões na Sala Walter da Silveira e no Cine Lankiana, além de outras atividades.

Ao mesmo tempo, a parceria com a Reserva Imovision permite prolongar essa descoberta para além das salas.

Cinema africano na Reserva Imovision de 10 a 23 de setembro

Durante o período da Mostra, de 10 a 23 de setembro, a Reserva Imovision recebe uma coleção especial com dez filmes escolhidos pela curadoria do evento.

Os títulos passeiam por múltiplos países, gerações, gêneros e também experiências de diáspora. Alguns permanecem profundamente ligados ao território africano, enquanto outros acompanham personagens que partiram e precisam negociar seu pertencimento em outros lugares.

Para quem procura filmes africanos na Reserva Imovision, a coleção funciona como uma oportunidade de entrar nesse universo por caminhos bastante diferentes.

Banel e Adama

Banel e Adama conversam sentados à sombra de uma árvore diante de uma casa de barro

Em Banel e Adama, primeiro longa de Ramata-Toulaye Sy, um jovem casal vive em uma pequena comunidade no norte do Senegal.

Banel e Adama estão profundamente apaixonados e desejam construir uma vida segundo suas próprias escolhas. O problema é que aquilo que imaginam para o futuro começa a entrar em conflito com as expectativas da comunidade, especialmente quando Adama recusa a responsabilidade de assumir uma posição tradicional de liderança.

A diretora transforma esse amor em uma espécie de fábula sobre liberdade individual, tradição e pertencimento. Filmado em língua pulaar, o longa também chama atenção pela maneira como a paisagem parece acompanhar as mudanças emocionais e sociais que cercam o casal.

Banel e Adama disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2023 e aparece na coleção como representante do Senegal.

Eu Não Sou Uma Bruxa

Eu Não Sou Uma Bruxa, de Rungano Nyoni, acompanha Shula, uma menina de nove anos acusada de bruxaria em uma comunidade da Zâmbia.

Depois da acusação, ela é enviada para um campo onde vivem outras mulheres classificadas como bruxas. A partir dessa situação, o filme constrói uma mistura inquietante de drama, humor absurdo e crítica social.

Rungano Nyoni não está interessada em confirmar ou negar qualquer elemento sobrenatural. O que aparece no centro da obra são as estruturas capazes de transformar superstição, burocracia e desigualdade em formas de controle sobre meninas e mulheres.

É uma história dura, mas filmada com uma inventividade que impede o longa de se acomodar em uma única tonalidade. Tragédia e absurdo aparecem frequentemente na mesma imagem.

Mali Twist

Em Mali Twist, de Robert Guédiguian, voltamos à Bamako dos anos 1960, em um momento em que a independência política parecia abrir também a possibilidade de imaginar novos futuros.

Os jovens dançam twist, escutam rock and roll e discutem a revolução enquanto o país experimenta transformações profundas.

É nesse ambiente que Samba, um jovem comprometido com o projeto socialista, conhece Lara, que tenta escapar de um casamento imposto. O romance entre os dois se desenvolve ao mesmo tempo em que os sonhos políticos daquela geração começam a enfrentar seus próprios limites.

O filme encontra uma energia contagiante na música e na juventude, mas não trata o período com nostalgia simples. Liberdade política e liberdade pessoal nem sempre avançam na mesma velocidade.

Omen

Cena de Omen mostra duas pessoas com pinturas corporais abraçadas em um ambiente escuro

Omen, primeiro longa do artista congolês-belga Baloji, acompanha Koffi, que vive há anos na Bélgica e decide retornar à República Democrática do Congo ao lado de Alice, sua companheira grávida. Ele espera reencontrar a família e se reconciliar com uma história marcada pela rejeição, mas as antigas crenças que um dia o afastaram logo voltam à tona. 

O filme se divide entre diferentes personagens ligados por acusações de feitiçaria, tradição, trauma e exclusão. Em vez de opor simplesmente modernidade e costume, Baloji cria um universo de realismo mágico em que imagens fantásticas ajudam a revelar conflitos muito concretos sobre identidade e pertencimento.

Omen recebeu o prêmio New Voice na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2023.

O Truque da Galinha

Cartaz de O Truque da Galinha com personagens reunidos atrás de uma galinha branca

Em O Truque da Galinha, do egípcio Omar El Zohairy, um truque de mágica durante uma festa infantil dá muito errado e o pai autoritário de uma família acaba sendo transformado em uma galinha.

A premissa parece anunciar uma comédia absurda e, de certa forma, é exatamente isso que encontramos. Mas o desaparecimento do homem também obriga sua esposa a assumir as responsabilidades das quais sempre havia sido afastada.

Enquanto tenta sustentar os filhos e compreender o que aconteceu, essa mulher atravessa outra transformação, bem menos fantástica e muito mais profunda.

O filme combina humor desconcertante e crítica social para observar relações de gênero, pobreza e autonomia. Em Cannes, conquistou o Grand Prix da Semana da Crítica e o prêmio da FIPRESCI.

Hanami

Cena de Hanami mostra mulher sentada com um bebê no colo diante de um fundo fotográfico

Hanami, de Denise Fernandes, se passa em uma ilha vulcânica de Cabo Verde, onde a vontade de partir faz parte da vida de quase todos os moradores. Nana, porém, escolhe permanecer.

Sua mãe, Nia, desapareceu pouco depois de seu nascimento, levando consigo uma doença misteriosa. Pouco depois, Nana adoece e é levada até a região próxima ao vulcão em busca de tratamento. Ali, a realidade começa a se misturar com sonhos, paisagem, memória e uma dimensão quase mágica do território.

Anos depois, Nana precisa lidar com o retorno inesperado da mãe.

Hanami aborda as relações entre pertencimento, partida e retorno. O que leva alguém a permanecer em um lugar de onde tantos querem sair? E como é voltar para casa depois de anos longe?

Black Tea

Cena de Black Tea mostra Aya e Cai preparando chá juntos em uma loja iluminada por uma luminária

Em Black Tea – O Aroma do Amor, de Abderrahmane Sissako, Aya abandona seu casamento na Costa do Marfim no próprio dia da cerimônia e parte para a China.

Ela passa a viver em Guangzhou e trabalha em uma loja especializada em chá. Ali, ela conhece Cai, um homem chinês mais velho com quem inicia uma relação afetiva.

A aproximação entre os dois abre uma história sobre desejo, deslocamento e preconceito em um espaço marcado pelo encontro entre diferentes culturas.

Sissako, um dos nomes mais importantes do cinema africano contemporâneo, olha para essa comunidade africana na China sem transformar a migração apenas em ruptura. Em Black Tea, partir também significa experimentar outras maneiras de construir intimidade e pertencimento.

Château Paris

Château Paris, de Modi Barry e Cédric Ido, leva a coleção para o bairro de Château d’Eau, em Paris, marcado pela presença de diferentes comunidades africanas e migrantes.

Charles trabalha nas ruas atraindo clientes para os diversos salões especializados em cabelos afro da região. Carismático e habilidoso com as palavras, ele reina naquele pequeno universo, até que a chegada de um concorrente ameaça sua posição e seus planos de crescer profissionalmente.

Mais do que um filme sobre trabalho ou competição, Château Paris observa uma comunidade afro-francesa com humor e energia, mostrando como identidade e cultura também continuam sendo construídas longe do continente.

Uma Temporada na França

Em Uma Temporada na França, de Mahamat-Saleh Haroun, o professor Abbas tenta reconstruir a vida depois de fugir da guerra na República Centro-Africana com os dois filhos.

Na França, ele trabalha em um mercado enquanto espera uma decisão sobre seu pedido de asilo. Ao mesmo tempo, começa a se relacionar com Carole, uma mulher francesa disposta a compartilhar sua vida e oferecer acolhimento à família. A espera burocrática, porém, transforma cada projeto em algo provisório.

Haroun filma a experiência do refúgio a partir do cotidiano. O que está em jogo não é apenas o direito de permanecer em um país, mas a possibilidade de construir uma casa, cuidar dos filhos, amar alguém e imaginar um futuro que não precise ser desmontado novamente.

Em Qualquer Lugar, a Qualquer Hora

Cena de Em Qualquer Lugar, a Qualquer Hora mostra Issa sentado ao lado de uma bicicleta e mochila de entrega

Em Qualquer Lugar, a Qualquer Hora, de Milad Tangshir, acompanha Issa, um jovem imigrante sem documentos que tenta sobreviver em uma grande cidade italiana.

Com a ajuda de um amigo, ele consegue trabalhar como entregador de comida usando uma identidade emprestada, e sua bicicleta se torna fundamental para sustentar essa frágil rotina. Quando ela é roubada, tudo começa a desmoronar.

O filme acompanha a tentativa de Issa de recuperá-la e transforma essa busca em um retrato da precariedade que atravessa a experiência de muitos trabalhadores imigrantes. A referência ao neorrealismo italiano aparece de maneira especialmente significativa, aproximando uma tradição histórica daquele cinema de uma realidade contemporânea.

Assista à coleção na Reserva Imovision

Entre 10 e 23 de setembro de 2026, a Reserva Imovision recebe a coleção especial selecionada em parceria com a Mostra de Cinemas Africanos.

São dez filmes capazes de aproximar o público de diferentes territórios, gêneros, gerações e experiências ligadas ao continente e à diáspora.

A janela é temporária e acompanha o período da 9ª edição da Mostra. Por isso, vale aproveitar os dias do festival para descobrir essas obras e seguir por caminhos que talvez ainda estejam fora do repertório habitual.

O cinema africano não oferece um único mapa, e esta coleção é justamente um convite para começar a explorá-lo.

Perguntas frequentes sobre cinema africano

Quanto mais filmes entram em circulação, mais algumas ideias simplificadoras sobre o cinema africano começam a perder sentido. As perguntas abaixo ajudam a ampliar esse olhar e a entender melhor as diferentes formas de produção e pertencimento presentes nessas cinematografias.

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