Alexandros Avranas e o mal-estar contemporâneo
Falar de Alexandros Avranas é falar de um cinema que está sempre interessado no ponto em que a vida cotidiana deixa de funcionar como abrigo e começa a revelar algo mais duro, mais corrosivo, mais difícil de suportar. Em entrevista a Vassilis Economou, publicada pela Cineuropa em 25 de setembro de 2017, durante o Festival de San Sebastián, o diretor afirmou que Não Me Ame tenta questionar “a moralidade, os valores morais em todos os tipos de relações” e investigar vínculos baseados em “exploração e canibalismo humano” – “The movie tries to question morality, the moral values in all kinds of relationships. Relationships that are based on exploitation and human cannibalism are there to be investigated” (tradução livre para o português).
Anos depois, ao falar de Síndrome da Apatia em entrevista a Angelo Acerbi, publicada pelo Venezia News em 29 de agosto de 2024, durante o Festival de Veneza, Avranas voltou a formular seu cinema em chave moral e política. Segundo ele, o filme pergunta “que sociedade estamos deixando para nossos filhos?” e sugere que as crianças, diante de um mundo duro e desumanizado, “desligam seus corpos” como forma extrema de recusa – “Above all, what is the society we are leaving to our children? […] They simply shut off their body” (tradução livre para o português).
Na Reserva Imovision, esse percurso aparece com clareza em três filmes disponíveis na plataforma, Miss Violence, Não Me Ame e Síndrome da Apatia. Juntos, eles ajudam a perceber uma linha de força no cinema de Avranas, o interesse por personagens presos em sistemas íntimos e sociais que parecem funcionar normalmente por fora, mas já apodreceram por dentro.
O desconforto, em Avranas, não vem só do tema, mas também da forma como ele organiza o olhar. Em vez de transformar trauma em catarse, seus filmes costumam deixá-lo agir no espaço, no silêncio, na rotina e nas relações. Isso já estava muito claro em Miss Violence, que lhe rendeu o Leão de Prata de Melhor Direção em Veneza 2013, além da Coppa Volpi de Melhor Ator para Themis Panou. Anos depois, ao retornar com Não Me Ame, em competição oficial em San Sebastián, ele continuava interessado nessa mesma erosão moral, agora deslocada para o interior de um casal e de uma estrutura de classe. E, com Síndrome da Apatia, apresentado em Veneza 2024, o foco se volta para o exílio e para a violência burocrática que recai sobre a infância.
Talvez por isso seus filmes permaneçam tanto: eles não oferecem uma explicação confortável para o mal-estar. Preferem filmar o momento em que o afeto se contamina, a proteção falha e o cotidiano já não consegue esconder a violência que o sustenta. É um cinema que não se apressa em “resolver” seus personagens, e sim em observá-los e deixar que o espectador sinta o peso da pressão até o fim.

Em Miss Violence, tudo começa com um choque. Durante uma festa de aniversário, uma menina de 11 anos se suicida, e a partir desse gesto brutal o filme passa a acompanhar a família que ficou para trás. Mas o que poderia ser tratado apenas como mistério ou trauma imediato vai se revelando como algo muito mais sufocante. Aos poucos, a casa deixa de parecer um espaço de luto e passa a ser vista como uma estrutura de controle, medo e obediência.
A força do filme está em como ele transforma essa atmosfera em experiência; não é um cinema de grito constante, mas de contenção venenosa. O desconforto cresce porque tudo parece excessivamente disciplinado, excessivamente quieto, como se a normalidade da casa já fosse, por si só, um sintoma. O reconhecimento em Veneza não veio por acaso, Miss Violence é o tipo de filme que faz da família um mecanismo de opressão.
Em Não Me Ame, Avranas desloca esse mal-estar para o espaço do casal e da maternidade. O filme acompanha um homem e uma mulher que escolhem uma jovem imigrante para gerar o bebê que desejam ter. A partir dessa decisão, o convívio entre as duas mulheres se intensifica, e a aparente solidez daquele ambiente começa a revelar fissuras cada vez mais graves. A história se organiza ao redor de relações em que desejo, poder, classe e exploração não conseguem mais ser separados.
O que torna o filme tão inquietante é a forma como ele evita qualquer conforto moral. Em vez de transformar a trama em denúncia didática, Não Me Ame prefere a observação de um vínculo fadado desde a origem. A entrevista de Avranas sobre o filme ajuda a entender esse gesto. Ele fala da moralidade em colapso, das relações baseadas em exploração, de uma lógica em que a vida do outro passa a valer apenas pelo que pode oferecer. Isso faz do longa menos um drama de situação e mais um retrato cruel de uma sociedade em decomposição.

Em Síndrome da Apatia, o desconforto de Avranas encontra outra forma, mais fria, mais suspensa e talvez ainda mais dolorosa. O filme acompanha uma família russa que vive na Suécia à espera de uma decisão sobre o pedido de asilo. Quando a resposta negativa chega, a filha mais nova entra em um estado de coma ligado à chamada síndrome de resignação. O ponto de partida é devastador porque faz da infância o lugar em que o trauma institucional se torna visível no corpo.
Aqui, Avranas não precisa aumentar o tom para ferir. O que impressiona é justamente a maneira como o filme transforma burocracia, incerteza e impotência em atmosfera. Em entrevista, o diretor relacionou essa história a uma pergunta sobre o futuro deixado às crianças, e esta é a chave do filme. Síndrome da Apatia não trata apenas de uma família refugiada, e sim do preço emocional de um mundo em que a dignidade pode ser suspensa por tempo indeterminado. É um cinema de apatia no melhor sentido da palavra, um cinema que entende que há violências tão prolongadas que já não explodem, paralisam.
Na Reserva Imovision, é possível conhecer esse percurso de forma muito concreta. Miss Violence, Não Me Ame e Síndrome da Apatia estão disponíveis na plataforma, formando um pequeno mapa de um diretor que insiste em filmar o lugar em que afeto, poder, violência e fragilidade moral se encontram.
Para seguir por esse caminho, vale assistir Síndrome da Apatia para começar e, a partir dele, atravessar o restante da obra de Avranas no catálogo.
Veja também: Assistir Miss Violence | Assistir Não Me Ame
O cinema de Alexandros Avranas costuma despertar perguntas porque se move em um território de desconforto moral, tensão íntima e violência que raramente aparece de forma evidente logo de início. Seus filmes partem de situações reconhecíveis, como a família, o casal, a infância e o exílio, mas transformam esses espaços em zonas de fratura. Por isso, faz sentido reunir algumas das dúvidas mais comuns sobre o diretor, sua filmografia e o lugar que sua obra ocupa no cinema contemporâneo.
Alexandros Avranas é um diretor e roteirista grego conhecido por filmes que exploram relações de poder, violência, silêncio e degradação moral. Sua obra costuma observar personagens presos em estruturas familiares e sociais que parecem funcionar normalmente por fora, mas já estão profundamente corrompidas por dentro.
Ao longo da carreira, Avranas se consolidou como uma das vozes mais inquietas do cinema grego contemporâneo. Em seus filmes, o desconforto não vem apenas do que acontece, mas da forma como as relações são filmadas, com frieza, contenção e um mal-estar que cresce aos poucos.
Entre os principais filmes de Alexandros Avranas, três títulos ajudam a entender muito bem sua trajetória, sendo eles Miss Violence, Não Me Ame e Síndrome da Apatia.
Miss Violence é um dos filmes centrais de sua carreira e ganhou grande projeção internacional. Não Me Ame amplia seu interesse por relações contaminadas por exploração e violência moral. Já Síndrome da Apatia leva esse desconforto para o campo do exílio e da infância, mostrando como a violência institucional também pode adoecer o corpo e a subjetividade.
Síndrome da Apatia acompanha uma família russa exilada na Suécia enquanto aguarda a resposta ao pedido de asilo. Quando a situação migratória se agrava, a filha mais nova entra em um estado de colapso associado à chamada síndrome de resignação.
O filme transforma essa premissa em um drama sobre espera, impotência e trauma. Mais do que tratar apenas da burocracia do exílio, ele observa o impacto psíquico e emocional de um mundo em que a infância já não encontra proteção. É justamente essa combinação entre experiência íntima e violência estrutural que torna o filme tão marcante.
Os filmes de Alexandros Avranas são desconfortáveis porque evitam atalhos emocionais e recusam explicações fáceis. Em vez de organizar seus personagens em categorias simples, ele prefere filmar o ambiente em que a violência se instala, cresce e passa a parecer parte da normalidade.
Esse desconforto também vem da forma. Avranas costuma trabalhar com silêncio, contenção, rigidez e uma atmosfera em que o mal-estar parece sempre prestes a transbordar. O resultado é um cinema que não busca alívio imediato, mas confronto, tensão e permanência.
O nome de Alexandros Avranas costuma aparecer em conversas sobre a Greek Weird Wave, movimento associado ao cinema grego contemporâneo e a diretores como Yorgos Lanthimos e Athina Rachel Tsangari. Essa aproximação faz sentido porque seus filmes também trabalham estranhamento, relações familiares distorcidas e uma atmosfera de desconforto moral.
Ao mesmo tempo, Avranas tem uma assinatura própria. Seu cinema parece mais diretamente voltado para estruturas de opressão, exploração e trauma, com um peso social e emocional muito particular. Então, mesmo quando é colocado ao lado da Greek Weird Wave, ele continua sendo um diretor com voz claramente singular.